terça-feira, 19 de maio de 2009

Monumento às três raças: análise e crítica





por Laís Midori Shiraishi

Carlos Eduardo Dias Comas, professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, diz que a crítica como arquitetura é um ofício. Para ele a arquitetura está diretamente ligada a crítica, pois esta é a base para apresentar o conteúdo do projeto para um determinado público, é a ligação entre as idéias teóricas e a construção do projeto na prática. Baseado nisso comentarei e criticarei o espaço central da cidade de Goiânia, mais precisamente a Praça Dr. Pedro Ludovico Teixeira, mais conhecida com Praça Cívica, e suas principais obras arquitetônicas, com destaque para o Monumento às Três Raças. Antes de tudo apresentarei resumidamente a história, o desenvolvimento e as mudanças tratadas dentro do local da Praça Cívica.
A Praça Dr. Pedro Ludovico Teixeira, considerada um marco inicial da construção de Goiânia, foi criada em 1933. É assim nomeada devido à homenagem ao fundador da cidade. Considerado um local de grande movimento devido às grandes avenidas Araguaia, Tocantins e Paranaíba, é composta pelos Palácios das Esmeraldas (sede do governo estadual), Palácio de Campinas (sede do governo municipal), Palácio Pedro Ludovico Teixeira (responsável pela administração financeira do Estado) e Museu Zoroastro Artiaga.
O centro da praça abriga o Monumento às Três Raças, esculpido em bronze e granito pela artista Neusa Morais em 1968. Esse monumento é uma homenagem à miscigenação entre as etnias branca (representada principalmente pelos bandeirantes), negros (representada pelos antigos escravos) e indígena, que deram origem ao povo goiano. A sociedade goianiense foi formada com a vinda dos bandeirantes e escravos a procura de ouro, somada aos povos indígenas aqui já existentes. Por isso essa grande miscigenação aparece como característica marcante da região central do Brasil.
A escultura possui 7 metros de altura e massa de 300 quilogramas e apresenta características da arte moderna. Na estaca de granito que as estátuas de bronze erguem está incrustado o brasão da cidade, um elemento que traz a relevância a essa homenagem à formação do povo goianiense.

A localização da escultura em uma área relativamente ampla, sem uma carga pesada de edifícios próximos, é um ponto positivo para que haja um destaque para a visão do observador sobre a obra escultural. Outro ponto que favorece esse direcionamento do olhar do cidadão é a elevação da escultura sobre uma plataforma com uma elevação considerável. Porém, esse destaque que a obra apresenta no local tem sido discutido por alguns críticos. Para alguns arquitetos essa escultura obstrui a vista principal que o eixo da Goiás proporciona do Palácio das Esmeraldas, questão que levou a uma equipe de pessoas a propor uma relocação do monumento para a Praça dos trabalhadores. Outra justificativa adotada por essa equipe é a questão de que o monumento tem um valor muito mais simbólico para os trabalhadores, devido a essa representação de um esforço, um trabalho, uma construção que os três homens representam.
O monumento, apesar de sugerir uma união entre as raças ao mostrar que os três homens se juntam em prol de um objetivo único, qual seja, de levantar a coluna, mostra as diferenças étnicas presentes principalmente no passado anterior à abolição da escravatura. Essas diferenças podem ser perceptíveis quando se nota a diferença no vestuário de cada personagem esculpido. O homem branco aparece com uma calça comprida enquanto que o negro encontra-se vestindo uma calça arregaçada à altura dos joelhos e o índio surge praticamente nú. Outra sugestividade apresentada na escultura é a idéia de que o homem branco tem um poder maior, é mais forte que os demais por estar visivelmente na obra realizando um esforço maior devido à coluna estar mais inclinada para ele e a necessidade de seu próprio corpo estar mais inclinado a fim de suportar a estaca.
Mas todo esse preconceito, antes mais marcado, tende a diminuir, pois hoje os negros e os indígenas já estão inseridos na sociedade de uma forma bem mais igualitária que naquela época. A evolução dos fatos urbanos fez com que a cultura, a ideologia, o pensamento da população em geral mudasse consideravelmente nos dias de hoje.
Os monumentos são rejeitados por alguns arquitetos devido ao fato de que grande parte deles não é funcional, isto é, não carregam uma função de moradia, apenas de apreciação da beleza da obra. Porém muitos monumentos possuem uma carga funcional além da apreciatividade, chamados de trans-funcionais, como as catedrais, e até mesmo podem possuir uma carga cultural, denominados trans-culturais, como os túmulos. Além disso, muitos deles simbolizam uma história, um acontecimento que marcou a cidade de alguma maneira, sendo importante na cristalização do acontecimento através da criação do monumento e fornecendo à população uma cultura maior sobre os fatos a que a obra se refere. Não apenas isso, os monumentos podem representar os marcos da cidade, uma atenção maior para a região apenas para o apreciamento da beleza da obra, e até mesmo, dependendo da grandiosidade, ela pode servir como uma atração turística para a cidade. Bibliografia
*http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4783359T1
*http://www.goiania.go.gov.br/html/principal/goiania/monumentos/tresracas.shtml
*http://www.webventure.com.br/multimidia/fotos/foto_45473_2007-08-08_grande.jpg
*http://www.vitruvius.com.br/institucional/inst16/inst016%20trabalhadores.asp
*AMARAL, Camilo. O Papel da Crítica na Arquitetura
*LEFEBVRE. Da Cidade à Sociedade Urbana

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